Criptomoeda/Cryptocurrency

LGBT Token: o pote de ouro noutro lado do arco-íris

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Frederico Becker

Certa vez, Alan Joyce, CEO da companhia aérea Qantas Airlines, ponderou que, no meio empresarial, era impossível extrair o potencial máximo de uma pessoa, se essa tivesse que esconder quem realmente era. Lembrou, também, que o medo do impacto que sua identidade poderia ter em sua carreira, a afastaria de contribuir com a organização da empresa.

É bem verdade que a assertiva se refere a uma visão social de inclusão atribuída às gestões microscópicas, mas trazendo-a para uma perspectiva macroscópica de economia global, o irlandês não poderia estar mais certo.

Afinal, se dando voz a particularidades – sejam elas quais forem – de funcionários, alcança-se o empoderamento institucional, e, ato continuo, a prosperidade econômica, nada mais justo do que imaginar que, em larga escala, os resultados sejam tão positivos quanto.

Tendo isso em mente, fica fácil entender os motivos que levaram a LGBT Foundation, uma organização sem fins lucrativos baseada em Hong Kong, a criar um token digital próprio da comunidade.

Abram-se parênteses, antes de ir a fundo no aludido propósito, para lembrar que, em estudo feito nos Estados Unidos, estimou-se que o poder de compra combinado de homossexuais, bissexuais e transexuais representava não apenas alguns bilhões, mas 917 bilhões de dólares, só no ano de 2015.[1]

Ou seja, na concepção desta criptomoeda, além de uma boa dose de beneficência, constata-se de que se trata de um mercado farto a ser explorado.

Não obstante a pujante economia atrelada ao pink money, é de se reconhecer que o cenário no qual a comunidade insere-se está longe de ser um mar de rosas. Diz-se isso, pois basta um rápido acesso a mídias sociais e a noticiários, para verificar o conjunto de mazelas sociais, políticas e, por conseguinte, econômicas que LGBTs enfrentam pelo mundo. Nesse aspecto, um token digital próprio pode vir muito bem a calhar.

Tomando, por exemplo, a Chechênia, país cuja persecução às causas LGBTs originou o estabelecimento de campos de concentração em pleno ano de 2017[2], a criptomoeda poderá viabilizar o envio de suporte financeiro, de maneira anônima, segura e independente de um terceiro – que por vezes, é o próprio governo. Através de uma companhia aérea que aceite a moeda, perseguidos podem deixar o país em questão de horas.

Lamentavelmente, situações análogas não são tão raras pelo globo, como se pode imaginar. O LGBT Token, através de uma taxa – ainda menor que a de cartões convencionais, seja de 3% a 6% – pode custear programas de responsabilidade social voltados à comunidade, revertendo uma pequeníssima parcela das transações feitas para ações contra a discriminação, a perseguição institucional – que embasa a sentença de pena de morte por relações com pessoas do mesmo sexo, em dez países do mundo[3] – e, ainda, em prol da visibilidade cultural de uma identidade marginalizada.

Ainda, no que tange a visibilidade, a comunidade LGBT – que se fosse um país, seria a quarta maior economia do mundo, estimada em 4.6 trilhões de dólares[4] – ainda tem árduos passos a percorrer.

A criação desta criptomoeda poderá dar a resposta necessária a marginalização praticada por governos e, ainda, parcelas do setor privado. No que concerne o último, o direcionamento de um consumo, abastecido por uma economia trilionária, pode definitivamente abalar empresas que promovam politicas discriminatórias.

Trata-se de um passo para atribuir voz e identidade a uma comunidade, consagrando uma independência necessária para conduzir seus próprios destinos.

 

[1] https://www.nlgja.org/outnewswire/2016/07/20/americas-lgbt-2015-buying-power-estimated-at-917-billion/

[2] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39603792

[3] https://bitcoinchaser.com/ico-hub/lgbt-token/

[4] https://www.computerweekly.com/news/252435033/Blockchain-to-give-global-LGBT-community-a-louder-economic-voice

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